76% veem racismo no Brasil, mas só 28% admitem preconceito contra negros

Pesquisa DataPoder360 mostra que 76% dos brasileiros dizem haver preconceito contra negros no Brasil por causa da cor da pele. Para 12% da população, o racismo não existe no país. Outros 12% não souberam responder.

A pesquisa do DataPoder360, divisão de estudos estatísticos do Poder360, foi realizada de 22 a 24 de junho com 2.500 pessoas em 549 municípios, nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. Saiba mais sobre a metodologia lendo este texto.

A morte de George Floyd, homem negro, depois de ação de policiais brancos nos Estados Unidos provocou uma onda de manifestações antirracismo pelo mundo. Ele havia sido detido pela polícia de Mineápolis (Minnesota) acusado de ter tentado pagar uma compra com nota falsa de US$ 20 em 1 supermercado.

Floyd teve o pescoço prensado com o joelho por 1 policial branco por 8 minutos e 46 segundos e morreu.

O caso desencadeou uma série de atos pelos EUA, Brasil e Europa. Os protestos foram liderados pelo movimento “Black lives matter” (“Vidas negras importam”, em português).

De acordo com outro levantamento do DataPoder360, feito de 8 a 10 de junho, 11% dos brasileiros foram ou pretendiam ir a manifestações contra o racismo.

Os protestos reacenderam o debate sobre a desigualdade racial e a necessidade de 1 revisionismo histórico. O caso de George Floyd deu força à atuação de movimentos iconoclastas. Em várias cidades da Europa, manifestantes se reuniram para a derrubada de estátuas de personalidades históricas que têm em suas biografias passagens racistas e escravagistas, o que fez com que as autoridades locais as retirassem.

Em Bristol (Inglaterra), por exemplo, a estátua de Edward Colston, comerciante de escravos do século 17, foi jogada em 1 rio da cidade. Já nos EUA, a Universidade de Princeton decidiu retirar homenagem ao ex-presidente Woodrow Wilson do prédio da instituição, considerando que ele apoiou políticas segregacionistas.

No Brasil, atos como esses não foram realizados de forma enfática, mas, se feitos, configurariam crimes contra o patrimônio histórico.

Além da percepção sobre a existência do racismo no Brasil, o DataPoder360 fez a seguinte pergunta aos entrevistados: “Você diria que tem preconceito contra pessoas negras?”. O resultado do levantamento mostra que 28% dos brasileiros afirmam que sim, consideram ter preconceito contra negros. Outros 59% dizem que não.

O levantamento fez o cruzamento entre o que pensam os brasileiros sobre racismo e como avaliam o trabalho do presidente Jair Bolsonaro. Os entrevistados que mais admitem ser preconceituosos (31%) são os que rejeitam o presidente. Ou seja, avaliam o trabalho de Bolsonaro como ruim ou péssimo. Esse grupo anti-Bolsonaro também registra a taxa mais elevada (85%) dos que dizem enxergar racismo no Brasil.

As perguntas feitas pelo DataPoder360 repetiram exatamente o que o Datafolha indagou aos brasileiros em 1995 sobre preconceito por causa da cor da pele. O levantamento resultou no livro “Racismo Cordial” (eis a introdução – 1 MB).

Quando são analisados os dados dos 2 levantamentos, observa-se que hoje, 25 anos depois, o percentual dos que dizem haver racismo contra negros caiu de 89% para 76%. Só que a soma dos brasileiros que admitem eles próprios serem preconceituosos subiu de 10% para 28%.

Os dados mostram que continua válida a frase cunhada pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) nos anos 1960: “O brasileiro não evita, mas tem vergonha de ter preconceito”. No entanto, a admissão do racismo por parte de 28% da população indica o aumento do reconhecimento do problema social presente no país por meio da discriminação direta, de forma estrutural e institucional.

Ao analisar a pesquisa, Juarez Xavier, professor de jornalismo e coordenador-executivo do Núcleo Negro para a Pesquisa e Extensão da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), lembra que em 25 anos houve uma mudança significativa no contexto da luta contra a desigualdade e a questão racial. Segundo ele, em 1995, o Brasil vinha de uma trajetória de abertura do espaço democrático, celebrava o tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares e o governo de Fernando Henrique Cardoso abria espaço para políticas afirmativas para negros.

Juarez Xavier avalia que desde 2008 o mundo vive 1 momento em que o discurso da extrema-direita tenta minimizar a importância do debate sobre a questão étnica-racial e da questão de gênero, além de tentar criminalizar a cultura. Para ele, a população jovem hoje, que não viveu o período de ascensão da democracia, pode estar reproduzindo essa construção ideológica. Como mostra o DataPoder360, 28% dos jovens de 16 a 24 anos se dizem racistas hoje.

“A impressão que se tem é que o debate estimulado pela extrema-direita criou esse mecanismo”, disse o professor sobre a redução do percentual dos que acreditam existir racismo e o aumento do percentual dos que hoje se afirmam racistas.

“Pela 1ª vez, nós temos à frente da Presidência da República 1 presidente que faz depoimentos misóginos, racistas, preconceituosos, de violência. Isso nunca aconteceu naquele período democrático. A impressão que se tem é que esse discurso, o chamado ‘discurso do ódio’, da intolerância, da ausência de debate público e do respeito à opinião, pode ter influenciado 1 grupo de pessoas que tem se mostrado fiel a esse ideário”, disse.

“O grupo [que se diz racista] é bem próximo daquele que dá apoio incondicional a esse discurso da Presidência da República, em torno de 30%”, afirmou.

Sobre o percentual de pessoas que hoje se afirmam racistas, para Juarez Xavier, o dado pode ser resultado da percepção de que hoje a população negra é maioria no país. Ele diz que isso “pode ter provocado certo ressentimentos em determinados setores sociais”, que passaram agora a “se sentir à vontade para destilar o seu preconceito em relação à população não branca”.

O professor considera ainda que a onda conservadora pode não ser necessariamente a mesma que aprova o posicionamento de extrema-direita do governo. Isso justificaria, em parte, o percentual de pessoas que consideram o trabalho de Bolsonaro “ruim” ou “péssimo” e ao mesmo tempo dizem ter preconceito contra os negros.

De acordo com dados de maio de 2020 compilados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 9,4% da população se autodeclara preta no país e 46,8% se diz parda. Os brancos somam 42,7% da população.

Apesar de ser alto o número de pessoas que reconhecem a existência do racismo no Brasil e da comoção diante do caso de Floyd, como mostra o DataPoder360, há uma parcela de 12% população brasileira que continua crente na existência da harmonia racial no país.

Para o trineto do imperador Dom Pedro II, o príncipe imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, não existe diferença racial no país. “Estão procurando criar esse problema racial, mas não conseguem. Aqui, todos nos damos bem. Aqui no Brasil, todos nós vivemos bem”, disse em live promovida pela Fundação Alexandre de Gusmão, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, em 16 de junho.

A filósofa e escritora Djamila Ribeiro refuta esse entendimento. Para ela, a violência que a população negra sofreu no passado e continua sofrendo hoje no Brasil são romantizadas por meio da adoração à cultura negra. Segundo ela, isso causa uma falsa ideia de que não existe racismo no país.

“A gente fala muito das supostas pontes que nos unem. Todo mundo gosta de samba, de capoeira. As pessoas gostam das culturas negras, mas não se mobilizam quando os jovens negros são assassinados todos os dias no Brasil. É esse cinismo que ainda tenta romantizar ou colocar que somos uma sociedade muito cordial, que estamos muito felizes e nos tratamos bem”, disse em 18 de junho, em entrevista ao Poder em Foco, programa do Poder360 em parceria editorial com o SBT.

“O racismo no Brasil, e no mundo, nos últimos 25 anos passou a ser mais percebido, e até assumido com mais desenvoltura, por parcelas da população. ‘O racismo sempre existiu, só que agora passou a ser filmado’, disse o ator Will Smith, logo nos primeiros momentos após o assassinato de George Floyd, nos EUA. A onda de protestos contra o racismo contra negros alcançou pontos longínquos do planeta, e ainda prossegue. A OAB nacional tem se dedicado, de forma permanente e firme, à ação afirmativa e reparação da escravidão negra no Brasil, e agora examina a inclusão de autodeclaracão no seu cadastro e a adoção de cotas para negros em suas próximas eleições. Penso que o fato a ser ressaltado é que os esforços anti-racistas também se organizam e produzem resultados. Com prazer, vemos advogados oriundos das cotas na universidade e no emprego público federal, que a OAB ajudou a construir com os amicus curiae na ADPF 186 e ADC 41, atuando nos tribunais e nas academias. Vem mais por aí”, disse Humberto Adami, presidente da CNVENB (Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil) do Conselho Federal da OAB.

“Os números são surpreendentes e acendem 1 alerta. Mostram concretamente 1 severo agravamento do racismo no Brasil. O número daqueles que admitem ter preconceito racial quase triplicou em uma década em meia. Também os negacionistas da existência de preconceito aumentaram no período. Os indicativos são preocupantes e mostram a necessidade de seguirmos 1 outro caminho no combate ao racismo, promovendo mais inclusão e adotando mais ações afirmativas”, disse Ronnieu Duarte, diretor da Escola Nacional da Advocacia.

ESTRATIFICAÇÃO DO PRECONCEITO

O DataPoder360 também apresenta como se dividem as respostas sobre a percepção de racismo e preconceito autodeclarado no Brasil por gênero, idade, escolaridade, região e renda.

Os que menos enxergam a existência do preconceito no país contra a população negra são: homens (16%); pessoas com 60 anos ou mais (20%); pessoas com ensino superior (17%); moradores do Centro-Oeste (17%); e pessoas que recebem 10 salários mínimos ou mais (18%).

Os que mais admitem ser racistas (dentro dos 28%) são: as pessoas de 45 a 59 anos (33%); moradores do Centro-Oeste (48%); e os que recebem mais de 10 salários mínimos (47%).

COM AGÊNCIAS

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